Cartão de desconto, cartão pré-pago e clínica popular custam muito menos que um plano de saúde. A pergunta que importa é o que eles entregam em troca — e a resposta precisa vir antes de qualquer explicação:
Nenhuma dessas alternativas é plano de saúde. Elas não têm lista mínima de procedimentos a cobrir, não garantem internação, não são reguladas nem fiscalizadas pela ANS, e a empresa que vendeu o cartão não responde por tratamento de alto custo.
Isso não as torna inúteis. Torna-as úteis para uma coisa específica — consulta e exame simples, rápido e barato — e inúteis para a situação em que plano de saúde faz diferença, que é a doença grave.
Abaixo, o que é cada uma, quando compensa, e como cancelar se você já contratou.
Clínicas populares
São clínicas particulares com preço acessível. O público é, em boa parte, de ex-clientes de planos de saúde que cancelaram por não suportar a mensalidade.
A consulta costuma variar entre R$ 70 e R$ 120, e algumas oferecem mais de 40 especialidades. Dependendo do valor, o tratamento pode ser parcelado.
Onde elas param
Resolvem bem o problema simples. No caso complexo e caro, o paciente fica sem saída financeira e acaba no SUS — e aí aparece o segundo problema.
Como a clínica popular não tem ligação com o sistema público, o tratamento recomeça do zero. Exames e procedimentos já feitos não são aproveitados, e o paciente entra na fila para refazer a maior parte deles.
Ou seja: o dinheiro gasto na clínica não encurta o caminho no SUS.
Cartão de desconto de saúde
Você paga um valor à empresa — chamado de taxa de adesão, mensalidade ou anuidade — e recebe um cartão que dá desconto em consultas e serviços médicos na rede conveniada dela.
A mensalidade costuma ser baixa, a partir de cerca de R$ 15. Na rede conveniada, a consulta com clínico-geral pode sair por volta de R$ 20.
O pagamento da consulta é negociado diretamente com o prestador, e pode ser em dinheiro, cheque ou cartão.
O que ele não cobre
Não há acesso ilimitado a nada. O cartão não tem a cobertura de um plano de saúde e sequer possui lista mínima de procedimentos — cada empresa define o que oferece e pode mudar.
Você terá desconto em consulta e em alguns serviços. Quando precisar de um procedimento de alto custo, vai desembolsar o valor — mesmo com desconto — e a empresa que vendeu o cartão não tem nenhuma responsabilidade.
O serviço não é regulado pela ANS e não existe rol de procedimentos obrigatórios como há nos planos.
E nenhuma operadora de plano de saúde pode se associar a esse tipo de serviço ou oferecê-lo. Se alguém te apresentar um cartão de desconto como se fosse produto de uma operadora conhecida, é sinal de alerta — veja como funcionam os golpes em plano de saúde.
Cartão pré-pago de saúde
Funciona de forma parecida com o de desconto, com uma diferença: além da mensalidade, você precisa carregar o cartão com crédito — como se fazia com celular pré-pago — e os serviços só podem ser pagos com esse crédito.
A mensalidade também é baixa, na mesma ordem de grandeza. A recarga pode ser avulsa ou por pacote.
O que ele não cobre
As mesmas limitações do cartão de desconto, mais uma: se o crédito não cobrir o procedimento, você recarrega a diferença. Não há limite de cobertura, porque não há cobertura — há saldo.
Também não é regulado pela ANS, e operadoras de plano de saúde igualmente não podem oferecê-lo.
Atenção ao prazo dos créditos
Alguns contratos estabelecem validade para o crédito carregado. Pergunte antes: crédito que expira é dinheiro perdido, e essa informação raramente aparece em destaque.
Três perguntas antes de assinar
Faça essas três e exija a resposta por escrito. Elas resolvem quase toda a avaliação:
1. Quanto custa a consulta e o exame depois do desconto? O desconto percentual não diz nada. O que importa é o valor final, comparado ao preço particular da mesma consulta no seu bairro.
2. O que acontece se eu precisar de cirurgia ou internação? A resposta honesta é “nada” — e é importante ouvi-la do vendedor, não de um site.
3. Qual é a multa de cancelamento e em que condições ela é cobrada? Tratado na seção abaixo, e é onde mora a surpresa desagradável.
Confira também a rede conveniada completa e as taxas cobradas. Esses serviços em geral cobrem consulta e exame, e não têm pronto-socorro.
Como cancelar um cartão de desconto ou pré-pago
O cancelamento é feito diretamente com a empresa que vendeu o serviço. Como esses cartões não são regulados pela ANS, não existe o procedimento padronizado que vale para planos de saúde.
Quando a multa pode ser cobrada
Multa de cancelamento só é válida se estiver prevista em contrato e se o contrato tiver prazo determinado. Fora desses dois casos, não há o que cobrar.
E mesmo quando é devida, a multa precisa ser proporcional ao tempo que falta para o fim do contrato e ao benefício que você recebeu. Valor fixo cobrado integralmente a qualquer momento do contrato é abusivo.
Quando você não paga multa nenhuma
Se o motivo do cancelamento for má qualidade do serviço, você rescinde sem multa — mesmo que ela esteja no contrato. A empresa não entregou o que prometeu, e isso é causa para a rescisão.
Rede conveniada menor do que a anunciada, desconto diferente do prometido, dificuldade para agendar: tudo isso é descumprimento. Guarde prova — anúncio, material de venda, mensagens, tentativas de agendamento.
Em todo esse processo aplica-se integralmente o Código de Defesa do Consumidor.
Quando essas alternativas compensam
Como você paga a mensalidade mais as consultas e os tratamentos, a conta só fecha em duas condições, e as duas precisam valer:
- Poucos atendimentos por mês. Com uso frequente, a soma alcança o valor de um plano de entrada.
- Nenhuma necessidade de alta complexidade. Ressonância, tomografia, cirurgia e internação ficam fora, e são justamente os gastos que quebram um orçamento familiar.
Se o seu caso é de poucos atendimentos, vale comparar com o que resolve o mesmo problema dentro de um plano de verdade: o plano com coparticipação baixa a mensalidade justamente para quem usa pouco — e mantém a cobertura de internação.
Veja uma comparação entre o custo de uma tomografia e o custo de um plano de saúde com copaticipação.
Três caminhos que baixam o preço de um plano de verdade
Antes de escolher uma alternativa por causa do preço, vale saber que a mensalidade de plano de saúde varia muito mais do que parece:
Coparticipação. Você paga menos por mês e uma parte de cada uso. Na nossa base de preços, a redução de mensalidade chega a variar entre 9% e 37% conforme a operadora.
Abrangência regional. Se você mora, trabalha e se trata na mesma região, plano nacional é dinheiro gasto sem contrapartida. A diferença é grande — veja os tipos de plano de saúde.
Contratação por CNPJ. Quem tem empresa, inclusive MEI, costuma pagar menos que como pessoa física pelo mesmo produto.
Os valores de cada combinação estão nas tabelas de preço de planos de saúde no Rio de Janeiro.
E se a opção for o SUS
Não é alternativa de segunda classe: é o sistema que cobre transplante, tratamento oncológico, medicamento de alto custo e cirurgia complexa — exatamente o que nenhum cartão cobre.
O que atrapalha é a fila, e conhecer os próprios direitos encurta parte dela. Veja os direitos dos usuários do SUS.
E se o seu gasto maior é com remédio de uso contínuo, há um programa que atende qualquer pessoa, inclusive quem tem plano: o Farmácia Popular.
Empresas que oferecem esses serviços
Listamos abaixo algumas empresas do setor, para quem quiser pesquisar. Não garantimos a qualidade nem a idoneidade de nenhuma delas, e recomendamos que você confira coberturas, limitações, prazo de utilização dos créditos e multa de cancelamento antes de contratar.
Próximo passo
Me diga quanto você pode pagar por mês e quantas consultas costuma fazer no ano. Com essas duas informações dá para comparar, com números, o que sai mais barato: o cartão, um plano com coparticipação, ou um plano regional de entrada.
Em alguns casos a resposta é mesmo o cartão — e eu digo isso também. A consultoria é gratuita e você paga o mesmo valor da tabela da operadora.
